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Blog de Lula Moura

Temas diversos
June 27

Blog para Aventureiros

 

Desde o final do mês de maio de 2008, tenho aditado o blog, DICAS PARA AVENTUREIROS. Nele tenho levado aos praticantes do Trekking, Mergulho e do Mountain Bike, inforamações relevantes, dicas, testemunhos e relatos de minhas experiências com estes esportes.

Conto com sua visita por lá. És o endereço http://blog.azimuteaventuras.com.br .

Lula Moura

June 11

Um naufrágio na superfície

 

Como tudo na vida precisa de uma parada seja para um simples descanso ou para uma merecida revisão de suas engrenagens motriz, as chuvas e os ventos do inverno, trazem uma trégua para o mergulho nesta época aqui na região.

É a virada da temporada que cobra um valor para o ingresso a nova série de mergulhos maravilhosos que virão, ao preço pesado da abstinência sub, sobre-taxada por uma boa dose de uma necessária paciência.

Enquanto isso, só nos resta o convívio de superfície, através dos inúmeros meios de contato que unem a grande comunidade de mergulhadores. Justo num bom bate papo em um destes contatos, onde comentávamos sobre os pontos de             mergulho da região, surgiu uma feliz frase: Já que não podemos mergulhar nos naufrágios, que tal visitarmos um que está na superfície! Vamos visitar o Rebocador Taurus, vamos mergulhar nele!

Para os ainda desavisados, o Taurus será o próximo naufrágio induzido de Recife, com previsão de afundamento para o início de 2006.

Fizemos contato com Zé Mario, responsável pela doca dos rebocadores da Wilson Sons filial Recife, mergulhador experiente, e para nossa sorte, o arquiteto responsável pela reforma que irá tornar o Taurus apto  para o afundamento.

Quando lá chegamos, fomos muito bem recebido por Zé, que nos mostrou com merecido orgulho, todo trabalho de suporte que é dado aos rebocadores da empresa que operam nos portos de Recife e Suape, nos mostrando inclusive em detalhes o Rebocador Zeus, que estava com toda tripulação a bordo e pronto para operar. Tive ali a dimensão exata de um Rebocador pois, só os conhecia por dentro quando estavam submersos.

Em fim o objetivo, fomos ao Taurus, que se encontra atracado numa lateral da doca com a proa para lateral da antiga ponte Giratória, bem próximo ao porto de Recife. Já no convés, próximo a popa, avistamos facilmente a praça de máquinas, que já se encontra completamente vazia em comparação com a praça do Zeus, o acesso a ela será bem fácil. Estando nela e dirigindo no sentido  da proa vamos encontrar uma abertura que foi feita para permitir a passagem de um mergulhador equipado a um outro compartimento, antes acessado apenas por uma escada do outro lado, próxima da cozinha. Com certeza essa passagem facilitará em muito a entrada de luz e de muita vida marinha, vimos inclusive um monte de pontos de estacionamentos para tubarões lixas por lá.

Nos mergulhos será possível sair da praça de máquinas ate o passadiço por ao menos dois percursos. Até a chaminé esta sendo completamente desobstruída para permitir penetrações. Outro detalhe são os pontos de amarrações, aqueles arcos que ficam de borda a borda próximos da popa, os chamados espalha cabos, que estão presentes nos outros rebocadores afundados, tiveram que ser retirados, daí foi necessário facilitar o acesso aos cabeços de amarração, já que os projetos das discutidas poitas para os naufrágios da região ainda não saíram do papel.

Vimos também os locais onde deverão ser instados os materiais para as pesquisas das universidades locais além de diversos pontos que certamente servirão de abrigos para as espécies marinhas.

Apesar do Taurus ser menor do que o Lupus acredito que os trabalhos de reforma que estão sendo feitos, o transformarão num ponto de mergulho tão interessante quanto o próprio Lupus.

Confesso que tive uma sensação estranha ao ver o Taurus naquela situação. Em janeiro 2002 quando participava do afundamento do Servemar X, Minuano e Lupus vi o próprio Taurus em plena atividade levando os futuros naufrágios para os seus respectivos pontos onde iniciariam o comprimento de suas ultimas missões com toda postura e vigor de um grande rebocador. Ninguém ali imaginaria que pouco mais de um ano depois esse rebocador sofreria um acidente que o estaria habilitando a se transformar também em ponto de mergulho.

Nos resta agora parabenizar a Wilson Sons Recife, inicialmente pelo pioneirismo, que junto com o Projeto Mar acreditou fundo na idéia de transformar antigos rebocadores em recifes artificiais, em segundo pela bela homenagem que esta fazendo a aos seus navios transformando seus nomes em historia que irão perdurar e serem conhecidos por séculos, abrigando vida, trazendo lazer e colaborando para o turismo sub-aquático da região.

O mergulho local alegremente agradece e torce para que esse exemplo sirva mais uma vez como referência para que outros pontos do pais trilhem por esse caminho.

Foi um grande mergulho de inverno, e o legal mesmo, é que foram quase duas horas e nem rolou deco!

 

May 01

Um santuário submerso


Os relógios marcavam 23:30 de uma noite clara, de mar calmo e sem nevoeiros do dia 24 de março de 1887, quando por intermédio do choque por bombordo com a proa do Vapor Pirapama, o Vapor Bahia que tinha a bordo mais de 200 pessoas, foi rapidamente a pique na altura da praia de Ponta de Pedras, litoral norte de Pernambuco, vitimando fatalmente mais da metade deste número.

Sem dúvidas uma tragédia de proporções elevadas para época, e que fora cruelmente exposta através dos diversos corpos encontrados alguns dias após, nas praias de Carne de Vaca e Ponta de Pedras. O verdadeiro cenário da tragédia aparecia aos olhos dos moradores locais, de curiosos e da imprensa, que cumpriria o seu papel mostrando a todos aquele horror até onde a força de seu alcance pudesse chegar.

Pouco mais de cem anos depois, mais precisamente em um início de dezembro do ano 1991, justo no final de semana seguinte após a minha primeira viagem a Fernando de Noronha, fui convidado por um amigo mergulhador a visitar o Naufrágio do Vapor Bahia, ainda embriagado com o brilho roxo das calorosas e belas águas daquele arquipélago, confesso que aceitei o convite sem muita empolgação, acho que até numa condição de resignado, pois deveria voltar a me conformar logo com o que tinha de possível para mergulhar, afinal de contas, se mergulhar em Noronha hoje já é algo complicado e de difícil acesso, imaginem naquela época, onde havia apenas uma operadora de mergulho monopolizando tudo.

Mas fomos lá, alugamos alguns cilindros na atualmente extinta escola de mergulho CMAR, e partimos para a praia de Ponta de Pedras com o objetivo inicial de localizarmos a casa de um pescador chamado Jorge, conhecido na região como um grande marcador de cabeços, e que segundo informações sabia exatamente a marca do naufrágio do Bahia.

Em lá chegando, eu e mais três amigos mergulhadores, encontramos rapidamente a casa, quando fomos informados que Jorge não estava lá e que provavelmente se encontraria na colônia de pescadores, ao chegarmos na colônia, recebemos a informação de que o mesmo estava na praia limpando a embarcação. Já na praia cheguei perto de um rapaz moreno, com os cabelos grandes, encaracolados e queimados pelo sol, e perguntei:

- Amigo, você sabe quem é Jorge o pescador?

Ele olhou para mim e respondeu, com uma voz roca e grave :

- Sei sim! O que é que você quer com ele?

- Estamos querendo ir para o Bahia.

- O que vocês querem lá?

- Estamos querendo mergulhar lá e disseram que ele sabe a marca e poderia nos levar.

- E leva mesmo! Eu sou o Jorge e levo vocês lá. Muito prazer em conhece-los.


Fizemos os acertos e embarcamos numa pequena traineira motorizada, mas que precisava de uma vela de jangada para aumentar sua velocidade. Logo durante o trajeto, já pude perceber que a cor da água, não fazia feio frente às águas de Noronha, o que começou a aumentar minha empolgação.

Finalmente após quase duas horas de navegação, chegamos ao ponto do naufrágio, conferida a cada instante pelas marcas de terra que Jorge com olhares rápidos, validava freqüentemente. Após o comando de jogar a poita e de suas firmes palavras: Estamos em cima das caldeiras, começamos a nos equipar. Já de cima da embarcação era possível ver uma forma escura que se estendia tanto pela proa, como pela popa de nossa embarcação, era o Vapor Bahia que se estendia sob nós.

Fui o primeiro a cair na água, logo que pus a rosto para baixo, puder ver com extremo fascínio uma quantidade enorme de cardumes de diversas espécies, movendo-se freneticamente ao redor daquelas ferragens como se fosse uma festa do interior, aquela com direito a parquinhos e rodas gigantes, onde o colorido e a alegria são os destaques principais. Naquele momento a vontade de ver tudo aquilo de perto quase me fez esquecer a minha dupla, que ainda estava na embarcação.

Ao iniciar os 24 metros da descida, mal pude acreditar no que via, a concentração de vida
era enorme e se estendia pelos mais de cem metros do naufrágio, eram cardumes de Xáreus, Budiões, Arraias Xitas, Arraias Mantegas, Salemas, Xiras, Tartarugas, tudo isso tendo como plano de fundo aquelas ferragens coloridas por esponjas e corais. A cada local que passava ficava cada vez mais encantado. A visibilidade da água era absurda, as rodas propulsoras eram um show à parte, mas quando avistei a proa, imponente, sustentando ainda as duas ancoras, como se tivesse querendo mostrar ao tempo que ela era mais forte, fiquei boquiaberto, olhei de baixo para cima e avistei algumas arraias xitas que passavam por cima cortando os raios do sol com se fossem uma lâmina amolada, mas completamente inofensiva, pois ali mesmo, eles voltavam a brilhar tal qual antes, iluminando aquela obra de arte do destino com toda magnitude que aquele visual merecia.

Naquele momento, percebi claramente o poder de Deus, pois só um ser tão grandioso como Ele, seria capaz de transformar um cenário de uma tragédia, em algo tão lindo e maravilhoso como aquele, ali realmente me emocionei e lhe agradeci de joelhos, por ter me permitido ser um mergulhador e poder presenciar tudo aquilo pessoalmente.

Sai daquele mergulho modificado e extremamente encantado, me senti como se tivesse recebido uma benção. Voltei a mergulhar no Bahia muitas outras vezes e ainda tive o prazer de levar pela primeira vez, alguns amigos mergulhadores para visitar este naufrágio, e sem surpresas, percebi neles a mesma sensação de encantamento que senti quando lá estive para conheceraquela beleza submersa.

Mesmos hoje que o naufrágio é bem mais visitado e explorado por pescadores e caçadores submarinos, ainda apresenta toda imponência de um belo, grandioso e mágico ponto de mergulho, na minha opinião, o melhor de nossa região.

Considero o mergulho no Bahia um ritual de transcendência, uma submersão em suas águas me fazem encontrar uma paz tão grande, que chego a conseguir não pensar em nada, consigo me sentir parte daquele mundo, uma simbiose completa e regeneradora.

Recomendo a todos! O amigo Jorge ainda está lá, sem aquela vasta cabeleira, é verdade! Mas com a mesma simpatia, presteza e educação dignas de um guardião de um belo santuário submerso.

Aguas claras para todos!

April 18

Mergulho uma Paixão

 

Como os pequenos pés na terra, hora seca hora molhada pelas ondas, observava estático toda a plenitude do mar, aquele horizonte infinito coberto por um manto azul brilhoso reluzente, só me fazia perguntar :  Por que é azul?  Por que tanto poder e tanta paz ? O que há lá em baixo? Seria possível que tanta beleza e majestade só pudesse trazer as coisas ruins que me contavam?  Não, algo lá no fundo de meu pequeno coração, não me deixava acreditar.

Somente após anos, em um daqueles inesquecíveis finais de semanas da juventude durante um passeio de barco na praia de Tamandaré,  parado em uma pequena ilha de corais, foi quando recebi emprestado de um amigo uma máscara de mergulho. Ali tudo começou, quando fiz meu primeiro mergulho, vendo aquelas cores impressionantes, à sinergia latente e perfeita entre a vida existente e o meio, aquele som de freqüência perfeita, tendo o silencio como o plano de fundo, fiquei encantado. Tal qual o primeiro beijo de um adolescente apaixonado, deslumbrei!

Hipnotizado por aquelas cenas, que até hoje são retratadas fielmente em minha memória, tratei de buscar o meu passaporte de viagem para aquele mundo, adquiri no dia seguinte meus primeiros equipamentos de mergulho básico, e com a ansiedade de um encontro com o ser amado, passei a contar a vida em escalas de dias faltantes para os finais de semana. Estava vivendo uma paixão prematura, mas ardente, recíproca e duradoura.

A busca do mais foi inevitável, a necessidade de ficar mais, de estar mais crescia a cada momento, era químico  embriagante e ao mesmo tempo revoltante, precisava sentir mais aquela emoção que mexia comigo, que me fazia bem, que me fazia ser melhor.

Fui buscar o mergulho autônomo para satisfazer a “tara” daquela paixão. Na época uma atividade reservada a poucos devido aos pré-requisitos exigidos, mas fui, me superei e consegui. Lembro com pulsação acelerada pela emoção dos meus primeiros vinte minutos submersos em uma piscina, a minha vibração, a sensação agradável daquele ar seco, frio e vital entrado pela boca, do prazer emocionante de não precisar pedir permissão à superfície para continuar lá, e o descobrir que era possível.

Virei mergulhador, um descobridor,  um presenteado por Deus. Aprendi a valorizar a harmonia das coisas, aprendi sentir a fragilidade do ser, aprendi a amar a natureza, comecei a entender quão poderosa era a vida, sair melhor, mais forte, mais contagiado e cada vez mais viciado, peguei a doença, a doença de viver o mar em toda sua plenitude.

Queria compartilhar com todos aquele fascínio embriagante, mas não conseguia, não tinha palavras, não conseguia reproduzir a essência. Fui buscar na fotografia submarina a chave para a solução desta frustração. Através dela consegui trazer a tona toda beleza e harmonia daquele mundo maravilhoso, onde as formas e as cores se desdobravam em puro fascínio, e que só com muito respeito, calma e extrema sinergia era possível se retratar.

A paixão aumentou, encontrei na fotografia submarina a forma de agradecer a Deus por tudo que ele havia me permitido ver desde cedo através do mergulho, mostrando aos outros e principalmente para as crianças tudo de belo que havia lá embaixo, toda beleza de sua criação.

Mas o destino me reservava mais, fatos aconteceram que me levaram a não ser apenas um mergulhador aficionado pelo mar como tantos, sem que nada fosse programado, me transformei em um instrutor de mergulho, percebi logo após a formação da minha primeira turma que aquilo era minha missão, lá no fundo era aquilo que eu havia pedido, tinha em minhas mãos naquele momento, o poder de ensinar as pessoas a serem mergulhadoras, a serem especiais, a poderem ver “por dentro” toda beleza da natureza, toda beleza de um novo mundo, um mundo irmão, tão próximo de nós que passa despercebido pela maioria dos que nunca o viram, e até para aqueles que lá estiveram e não conseguiram sentir na alma, o seu poder.

Ganhei uma missão, a missão de plantar a semente da paixão nos corações das pessoas, e me entreguei a ela, tive sucessos e derrotas, mas continuei firme, ganhei em troca, amigos, carinho e muita satisfação.

Passei a ter no mar a minha fonte de energia, o meu ponto de equilíbrio, o meu canal de comunicação com Deus. Nas grandes horas difíceis de minha vida, tive no mar o meu altar de apoio,  me portava frente a ele como um discípulo em esplêndida contemplação, e tal qual um náufrago de uma ilha deserta olhando para o horizonte em busca da salvação, ficava num silencioso suplício em busca de solução. Soluções estas que mesmo que demoradas, pois estavam ao dispor das forças das ondas, sempre chegavam.

Vivo neste momento uma relação de muita integração com o mergulho, por isto apesar do texto acima ter sido feito exclusivamente para o cumprimento de uma promessa, a uma pessoa especial que queria ler os relatos de meus mergulho, resolvi publica-lo para conhecimento de todos na intenção de fazer reviver a emoção de mergulhar para aqueles que já tiveram a oportunidade de experimentar esse maravilhoso esporte, e de apresentar toda emoção que o mergulho é capaz de trazer para aqueles que ainda não sentiram na alma a magia de ver toda beleza da natureza submersa, que só pelo mergulho, se é capaz de senti-la em toda sua plenitude.

Um grande abraço para todos,

Luiz Antonio - Lula

 

 

Luiz Antonio Lins de Moura

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